POPULAÇÃO NEGRA
O relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005 - Racismo, pobreza e violência (PNUD, 2005) fez um levantamento de indicadores brasileiros nas áreas de desenvolvimento humano, renda, educação, saúde, emprego, habitação e violência e concluiu que em todos a situação do negro é desfavorável. A pesquisa mostra que as diferenças entre brancos e negros apontam em alguns casos uma defasagem de mais de uma geração. A porcentagem de homens negros com curso superior completo, em 2000, por exemplo, era menor que a dos homens brancos de 1980. Do mesmo modo, a taxa de analfabetismo dos negros, em 2000, era maior que a dos brancos em 1980. Os negros apresentavam, neste mesmo ano, esperança de vida semelhante à dos brancos de 1991. O estudo aponta também que a taxa de homicídios entre os negros é o dobro da dos brancos.
As cidades brasileiras, como formações sócio-espaciais, refletem estas estatísticas e demonstram como os efeitos do racismo e da pobreza, de forma associada, definem os lugares sociais de negros e não-brancos. Apesar da intensa circulação de mercadorias, bens, pessoas, idéias e valores, as cidades são concentradoras de riqueza e poder e reproduzem práticas racistas seculares que confinam o negro e o não-branco a determinados territórios, depauperados e sem nenhum tipo de presença do poder público.
É o que explica, por exemplo, o fenômeno da segregação espacial da população negra e não-branca com a formação de favelas, periferias, alagados e cortiços que, no contexto da cidade, estigmatizam os seus moradores. Segundo o relatório do PNUD, o percentual de negros que viviam em aglomerados subnormais (favelas, palafitas e similares) em 1991 (6,6%) era mais que o dobro da dos brancos vivendo nestas condições (3,1%). Em 2000, 2,8% dos brancos e 5,1% dos negros moravam em domicílios precários. Nestes lugares, o poder público só se faz presente como estado "policial", ou seja, não chega em forma de direitos em torno da educação, saúde, moradia, cultura etc. A repressão estatal, associada à criminalidade, reflete-se na taxa de homicídios: a taxa de homicídios por 100 mil habitantes para a população negra (pretos e pardos) é de 46,3%, 1,9 vez a dos brancos. Em relação aos brancos e amarelos, a probabilidade de ser assassinado é quase o dobro para os pardos e 2,5 vezes maior para os pretos.
Estas áreas segregadas, por sua vez, sofrem os influxos da especulação imobiliária: a voracidade dos interesses privados, seus empreendimentos e condomínios definem a migração forçada de negros e pobres para áreas menos valorizadas. Este processo de "faxina étnica" atinge as metrópoles e grandes cidades, com duros reflexos na condição de vida da população negra, e é acompanhado por toda uma lógica institucional que, ao reproduzir práticas racistas seculares, invisibiliza os negros e não-brancos no contexto do espaço urbano.
O sistema de ensino público pouco fez em termos da lei 10639/03 (atual 11645/08), que tem como objetivo incluir nos currículos escolares a cultura e história africana e indígena. Na área de saúde, ainda não existem estatísticas sobre a situação da população negra, em especial no que diz respeito a doenças como a anemia falciforme, com grande incidência sobre a população afro-descendente. Na área da cultura, os centros e espaços de produção cultural nas periferias e subúrbios são diminutos, sendo que, na maior parte das vezes, os ativistas culturais destas áreas agem por conta própria e sem apoio do poder municipal. Já os programas de moradia popular (CDHU), assim como os territórios negros das periferias, são completamente desprovidos de equipamentos culturais e de lazer. Sem exagero, estas se inscrevem na lógica dos antigos Bantusões sul-africanos, à época do Aparthied. As religiões de matriz africana – candomblé e umbanda – sofrem com a perseguição à sua livre manifestação, num evidente atentado à liberdade religiosa. A juventude negra é associada à criminalidade e isto, implicitamente, é o que justifica o seu processo de extermínio e violação dos direitos humanos. Em suma, o poder público não se mobiliza para promover a cidadania e os direitos desta parcela da população, que se destaca pela intensa produção cultural e artística através de expressões culturais juvenis, como o hip hop.
É função do poder público municipal promover a visibilidade e os direitos dos afro-descendentes, ou seja, reparar e promover políticas de integração desta população à cidade. São Paulo possui instrumentos de intervenção nestas áreas e o poder público pode e deve contribuir para que a universalização dos serviços se combine com práticas anti-racistas através da valorização do negro, como cidadão pleno, assim como de sua cultura.
Nossas propostas para a população negra:
• Regulamentação da Lei 10.639/03 (atual 11645/08), a partir de um amplo debate com educadores (as) e militantes do movimento negro, com o objetivo de capacitar educadores, produzir material didático e formar um Centro de Referência da População Negra
• Fortalecer e ampliar as funções e objetivos do Museu Afro-Brasileiro
• Promover a integração da população negra ao Sistema Único de Saúde, tendo como base as resoluções aprovadas na I Conferência Nacional de Saúde da População Negra
• Formação de Comitês de Bairro de Combate ao Racismo e Valorização da Cultura Afro-Brasileira, representativos dos diversos segmentos locais, com o objetivo de orientar o poder público municipal na formação de programas na área de educação, saúde, moradia, cultura e lazer
• Promover o Encontro Municipal de Religiões de Matriz Africana, para debater iniciativas do poder público municipal para resguardar o direito à liberdade religiosa
• Valorização das expressões da cultura negra, como o hip hop, samba e maracatu, através da formação de cooperativas de produtores culturais livremente associados, que se estruturem em torno de um Circuito Cultural Afro-Brasileiro
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